terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SOPA DO VIDREIRO E UMA HOMENAGEM

Antes de passar à receita de uma sopa tão simples, quero dedicar este espaço ao meu falecido sogro Joaquim Luís Deodato, homem simples, dedicado e que sempre foi vidreiro. 
Levou uma vida muito dura, recolhendo o vidro a altas temperaturas à boca dos fornos para outros o trabalharem com arte, ciência e transformarem-no em belas peças de arte. Trabalhar longas horas a altas temperaturas fazia e faz transpirar muito, exigindo beber muita água para compensar os líquidos perdidos pela transpiração. Mas a comida também tinha de ter o maior valor nutritivo para poderem resistir a tão grande esforço. 
A sopa de bacalhau é muito rica em proteínas, gorduras e hidrato de carbono. O bacalhau é muito rico em sódio, que era perdido em grandes quantidades pelo suor. O ovo é muito rico em proteínas. O pão, a broa e as batatas são uma grande fonte de hidratos de carbono. Todos estes alimentos para além de terem a energia necessária para duras horas de trabalho, o seu custo na altura era muito baixo. 
Nos anos 50/60 o almoço ou o jantar, conforme os turnos, era levado pelas mulheres ou pelos seus filhos num cesto de verga que continha um tacho com a sopa, que não podia ter muito caldo para não entornar, uma boa peça de fruta, a melhor era sempre para o chefe de família, um frasco de vidro, (conhecido pelo frasco do vidreiro), com vinho. Este frasco tem uma forma característica, o seu gargalo era seguro pelos dedos indicador e anelar, o que permitia ao vidreiro comer e beber sem perder muito tempo.
Esta tradição manteve-se durante muitos anos, hoje em dia só o saudosismo de algumas famílias e alguns grupos fazem renascer esta riqueza de um povo tão simples e nobre. 
E agora vamos à receita.
INGREDIENTES - 2 pessoas:
  • 2 postas de Bacalhau Dias
  • 300 g de batatas
  • 2 ovos
  • 2 pães duros
  • 2 fatias de broa
  • 4 dentes de alhos
  • 4 colheres sopa de azeite
  • 1 ramo de salsa

PREPARAÇÃO:
  1. Coza o bacalhau num tacho com água;
  2. Retire o bacalhau e reserve;
  3. Na mesma água coza as batatas cortadas às rodelas grossas;
  4. Antes das batatas estarem cozidas, junte os ovos e deixe-os escalfar;
  5. Parta o pão e a broa para dentro de uma terrina;
  6. Junte o alho bem picado, a salsa e regue com o azeite;
  7. Junte o bacalhau aos pedaços, os ovos, as batatas e o caldo onde estas cozeram;
  8. Sirva de imediato.
Bom Apetite!

4 comentários :

  1. Olá Zelinha,
    Que boa recordação esta que nos trazes....
    Eu sou da Marinha Grande da terra da sopa do vidreiro.
    Que delicia :)
    Kiss, Susy

    http://tertuliadasusy.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/tertuliadasusy

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  2. Que bela homenagem! O aspecto está excelente!

    Não te esqueças de participar na festa de aniversário do meu blog: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=596115510414173&set=a.605290732829984.152838.227131920645869&type=1&theater

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  3. É uma bonita homenagem e uma rica sopa! :) Bom fim de semana!

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  4. Era a sopa do vidreiro que alimentava as crianças que fechavam os moldes e os vidreiros que às bocas dos fornos colhiam grandes massas fundentes de vidro que desandavam, marizavam e trabalhavam para as transformar em belas peças de arte.
    Para se ter uma ideia da temperatura a que trabalhavam só as crianças bebiam cinco e mais litros de água por turno.
    Os tubos que servem para colher e movimentar as massas de vidro, chamadas de canas, são sopradas por todos que as usam pelo que, por razões óbvias, os alhos eram interditos na confecção da sopa do vidreiro para todos os que sopravam as canas.
    Também o sal adicionado na confecção da sopa era propositadamente reduzido para não fazer aumentar as grandes quantidades de água que os vidreiros bebiam e continuam a beber; pela mesma razão as postas de bacalhau era finas para mais facilmente serem dessalgadas, e também porque eram as mais baratas
    A sopa que refere e apresenta era para ser comida em casa, à mesa, e essa sim com alhos, e os ovos escalfados só raramente porque era preciso optimizar os recursos familiares, muito particularmente no período da guerra até muito depois de acabar.
    Nas fábricas os vidreiros comiam a sopa directamente de pequenas panelas de alumínio que hoje já não veem, eram altas e estreitas para serem entaladas entre as pernas.
    As fatias duras de pão e a broa eram dispostas em camadas alternadas, mais broa do que pão, e nos intervalos algumas rodelas de batatas cozidas e o bacalhau desfiado em quantidades que variavam consoante as condições económicas de cada família e tudo regado com água de cozer o bacalhau a que se adicionava por cima um fio fino de azeite para dar cor e sabor.
    Era assim que em criança eu via os meus familiares e vizinhos confeccionarem a famosa sopa do vidreiro.

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Obrigado pela vossa visita e pelo comentário.
Um beijinho,
Zélinha